sábado, 22 de maio de 2010

PRECISAMOS DE EQUILÍBRIO


Cada vez estou mais persuadido de que, na Igreja como em tudo, o equilíbrio é o maior sinal de sensatez e de sabedoria.
Não confundo moderação com indefinição ou receio. A moderação é um sintoma de serenidade e de disponibilidade para a escuta da presença de Deus.
Assim e a teor deste equilíbrio (e desta moderação), considero perigoso deslizar para os extremos.
Tão deletéria é, com efeito, uma tradição sem modernidade como uma modernidade sem tradição.
O antigo tem de estar aberto ao novo, o novo há-de estar enraízado no antigo.
Tudo a partir da fonte. Tudo com os olhos no fim.
Percebe-se a necessidade de acentuar cada um destes pólos.
Lamenta-se a ênfase nos exclusivismos. Quando se acentua a tradição contra a modernidade leva-se a que, por reacção, alguns optem por uma modernidade sem tradição.
Ao invés, quando se insiste numa modernidade contra a tradição, o resultado é que, por contraste, muitos enveredem por uma tradição sem modernidade.
Tradição com modernidade, modernidade com tradição eis, pois, a fórmula do autêntico progresso e a pauta de um caminho onde todos tenham lugar.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

A morada de Deus e a vida autêntica


Ontem, enquanto passeava numa quinta muito bonita, passei por duas vezes debaixo da mesma árvore. Verde, fresca, grande. Na primeira vez estava a pensar em assuntos pessoais. Tão encafuado estava em mim que só à segunda passagem, me apercebi da beleza da árvore por que passara.
Pareceu-me então que esta pode ser uma imagem simples e ajustada do que é o pecado. Não reconhecer o poder daquilo que cada momento nos oferece, porque estamos fechados a pensar sobre nós, sem sairmos daí. Esse dentro fechado dá-nos segurança, mas faz-nos deixar a vida passar ao lado.


«Se não receberdes a circuncisão, segundo a Lei de Moisés, não podereis salvar-vos» Talvez esse problema, que nos é tão comum, também se pode encontrar nas leituras deste domingo. Nos actos dos apóstolos, “alguns homens que desceram da Judeia [e] ensinavam aos irmãos de Antioquia”, por se fecharem na segurança da lei de Moisés, não reparam na beleza que Cristo trouxe: uma lei nova que os libertava de todas as outras. Amar como Ele nos amou!
Para Paulo e Barnabé, olhar Cristo implicava sair para fora de si. Implicava que os judeus saíssem para fora de todas as prescrições. Este era o único meio de reconhecerem “a altura, a largura e a profundidade” do amor de Deus!


«Na cidade não vi nenhum templo, porque o seu templo é o Senhor Deus omnipotente e o Cordeiro. A cidade não precisa da luz do sol nem da lua, porque a glória de Deus a ilumina e a sua lâmpada é o Cordeiro.» A beleza é a única que tem a capacidade nos surpreender profundamente, tirando-nos de nós. Porque nos mostra o que nunca soubemos existir ou ver. Na cidade de Deus, a beleza traduz-se em presença e luz. A presença de Deus não se confina a um templo. A luz não se confina a um corpo celeste. O próprio Deus mostra que o seu movimento é o de sair de si. Este é o movimento do amor: sair de si. Desta saída resultam a atenção e o serviço.
Deus oferece-nos algo de muito maior, se não nos prendermos em nós mesmos. Se repartires o teu pão com os esfo­meados, se dares abrigo aos infelizes sem casa, se atenderes e vestires os nus e não des­prezares o teu irmão. Então, a tua luz surgirá como a aurora, e as tuas feridas não tardarão a cicatrizar-se (Is 58).


«Quem Me ama guardará a minha palavra e meu Pai o amará; Nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada.» Um dos efeitos mais profundos da Palavra de Deus é o de nos fazer perceber que estamos abertos por todos os poros para o que está fora de nós: o bom, o justo, a amor. Tudo isto se encontra fora de nós, porque não se realiza sem um outro.
É desta comunhão profunda com Deus, pela palavra, que somos enviados para fora de nós. Quando estamos fora de nós, ou seja, mais preocupados com os outros que connosco próprios, mostramos o que nos habita, o que nos ocupa, o que nos motiva. Irradiamos para os outros a luz dessa morada que, inesperadamente Deus montou em nós. Somos autênticos. Só fora de nós há autenticidade.


Cristo, ao trazer a lei do amor, quer mostrar-nos a via da autenticidade: sair de nós. Ele fê-lo e dá-nos a força para o fazermos também, sem nos dispensar da tarefa de tornarmos sensata a nossa existência, de darmos sentido e carne ao que nos habita.
Onde habito eu? Dentro ou fora?